Tons de Cinza

ED WOOD (1994)

Uma das melhores obras do criativo Tim Burton, contando com seu ator favorito, Johnny Depp, “Ed Wood” é outro biópico realizado em preto e branco; não apenas para representar a época e os filmes da época (década de 50), mas principalmente certos filmes muito especiais – os do próprio Ed Wood, considerado o “pior diretor de todos os tempos”. (Há piores. E como…!)

Mas voltando ao filme – a carreira de Ed Wood é apresentada sem precisar de muito enfeite: um amante do cinema, determinado a ser o próximo Orson Welles, filmando onde podia, com atores em fim de carreira, usando restos de outros filmes, fazendo de tudo para conseguir financiamento (inclusive batizando todos os atores em uma igreja em troca de dinheiro)… Seus filmes geralmente eram de terror ou ficção científica, tendo como obra-prima “Plan 9 from Outer Space”, que conta a história de alienígenas bem-intencionados desejando acabar com a humanidade antes que esta destrua o universo. Seu plano de combate é: ressuscitar os mortos (3, no total)! Eles perdem… Outros filmes falam sobre transformistas (o próprio Ed Wood, fascinado por roupas de angorá rosa). No meio do caminho faz amizade com Bela Lugosi (maravilhosamente atuado por Martin Landau), tão acabado que aceita qualquer trabalho para poder pagar suas contas e doses de morfina. Também devemos mencionar a atuação do carismático Bill Murray, anos antes de voltar ao estrelato, que faz um amigo homossexual do diretor.

A maior qualidade deste filme é provavelmente mostrar-nos como o cinema funciona por dentro. Por mais absurdas que fossem as produções de Ed Wood, é inegável que há certa semelhança entre ele e os maiores produtores de Hollywood – principalmente no que se vende do filme para adquirir dinheiro. Atualmente são pouquíssimos os diretores que possuem carta branca; a maioria (mesmo os famosos) não podem alterar uma linha de diálogo do roteiro, não podem escolher os atores, precisam obedecer a um grupo de investidores que, no final, são os que realmente constroem o filme. E mesmo com as concessões de Wood, acredito que ele ainda tinha mais controle (ou descontrole) dos filmes que fazia do que muita gente hoje.

E ainda podemos dizer que hoje, embora os filmes sejam muito bem produzidos, sempre deixa-me um incômodo pensar que gastam para fazer uma aventurazinha qualquer o suficiente para alimentar um país da África por um ano inteiro.  Vejam só, “Ed Wood” custou mais que todos os filmes de Ed Wood somados. Pra ser franco, provavelmente o cachê de um dos atores coadjuvantes já deve ter custado mais. Ah, foi-se o tempo de uma ideia na cabeça e uma câmera na mão…

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Tons de Cinza

As Amazonas na Lua (1987)

Há muitos filmes coloridos que possuem trechos em preto e branco; nós não nos esquecemos deles! Por exemplo, a comédia “As Amazonas da Lua”. Muito resumidamente, o filme é uma série de skits satirizando os filmes de ficção científica e horror da década de 50 – a montagem é feita de forma a parecer que se está assistindo a um canal de filmes de baixo custo na TV, com direito inclusive a comerciais falsos!

Duas sátiras são feitas em p&b: uma curtíssima (meros segundos) em que um espectador vê-se dentro de um filme no estilo King Kong. A que realmente nos interessa é mais interessante: um suposto filme chamado “O Filho do Homem Invisível”, que seria continuação do clássico de James Whale. Na paródia, que dura aproximadamente cinco minutos, o filho do famigerado cientista acredita ter descoberto uma fórmula de invisibilidade que não afetará sua lucidez, como havia acontecido com seu pai. O que acontece é o oposto: o homem não se torna invisível mas acredita estar! Com isto ele sai a aprontar travessuras estando nú em pelo, acreditando não estar sendo visto.

O curta foi dirigido por Carl Gottlieb, que possui no currículo Caveman (com Ringo Starr) e os roteiros de Tubarão 1, 2 e 3-D… é de ficar com medo. Mesmo assim os cenários são fiéis ao filme original, e a sátira é coerente e engraçada. De fato, é citada no ótimo documentário do “O Homem Invisível” que acompanha as mais recentes edições em DVD. É uma ideia divertida, que é ainda mais engraçada para quem conhece o original.

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O HOMEM ELEFANTE (1980)

Um dos filmes mais convencionais do diretor David Lynch, “O homem elefante” é uma ótima obra cinematográfica. Lançado em 1980, conta-nos a história de John Merrick, homem com inúmeras deformidades e que é atração de um circo de horrores. Abusado pelo seu “dono”, é resgatado por um médico, Frederick Treves, e hospitalizado. Instigado tanto por um sentimento de caridade para com a pobre alma quanto pela chance de conseguir reconhecimento no círculo médico graças ao seu paciente, o doutor, interpretado por Anthony Hopkins, vê-se dividido pelas suas ações. Merrick, por sua vez, embora contente com sua nova situação, precisa enfrentar o perjúrio alheio e a ameaça de seu antigo captor e de outros homens interessados em lucrar com suas deformidades.

Passada na época vitoriana, temos inúmeras cenas visualmente primorosas: a primeira vez em que Merrick é exposto à comunidade médica, quando enxergamos apenas a sua sombra projetada em um lençol; quando volta a fazer parte do circo de horrores, onde temos uma óbvia homenagem ao filme “Freaks” de Tod Browning; a face da personagem, que exigia do ator John Hurt sete horas diárias de maquiagem, é capaz de incutir tanto nojo quanto pena, além de, apesar de ser complexa, não impedir a interpretação do ator; Anthony Hopkins, um talento indiscutível; e uma das imagens mais icônicas do cinema, quando Merrick entra pela primeira vez no hospital: vestido de negro exceto pelo rosto coberto com um pano branco no qual há apenas um furo. Além disso, temos uma trilha sonora econômica, nunca usada para causar susto ou trazer alguma emoção que a cena em si não conseguiria.

Uma das mais interessantes curiosidades da obra é que ela foi produzida por Mel Brooks; de fato foi graças ao comediante que o diretor escolhido foi David Lynch e o filme produzido em preto e branco. Nomeado para oito prêmios da Academia, “O Homem elefante” não recebeu sequer um.

Seria redundante comentar que o filme, assim como quase todas os biotópicos, pouco tem a ver com a realidade e que se inspira livremente na biografia do médico Treves – Merrick nunca foi abusado por ninguém, tendo sido membro de um circo de horrores por vontade própria. De qualquer forma, faz-nos pensar sobre o que causa no espectador simpatia pela personagem: um sentimento que remete aos sofrimentos da pessoa na realidade (e quantas pessoas nos dias de hoje sofrem injustiças ainda maiores) ou uma emoção abstrata que verte apenas para o que está atrás da tela.

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CONTROL (2007)

Primeiro filme dirigido por Anton Corbijn, famoso diretor de vídeo-clipes, Control conta a história de Ian Curtis, vocalista da banda Joy Division. Baseado em uma biografia escrita pela viúva do músico, não é de se espantar que durante suas duas horas de duração o filme concentre-se principalmente nos conflitos amorosos de Curtis.

Filmado em preto e branco, nas palavras de Corbijn para “refletir a atmosfera do Joy Division e o espírito da época”, o trabalho de câmera é bom e a história, pincelado com várias curiosidades da carreira musical do artista, deve agradar aos fãs da banda. A juventude e início do sucesso de Curtis é tratada adequadamente: conhecemos sua juventude infeliz, quando trabalhava como atendente em uma agência de empregos; seu casamento e o nascimento da filha; os primeiros shows e gravações do Joy Division; seus ataques de epilepsia e a dependência de remédios; a relação com uma jornalista; a incapacidade de lidar com a fama ou com os problemas amorosos e seu suicídio. Há momentos interessantes contando a influência de Tony Wilson (dono da Factory Records, a gravadora do JD) e de Rob Gretton (empresário) na carreira da banda, embora os restantes membros do Joy Division tenham apenas um significado figurativo e não sejam tratados com muita atenção (exceto em um momento em que Bernard Sumner hipnotiza Ian Curtis (!) e o cantor vislumbra momentos de sua morte (!!)).

Se podemos elogiar algo é certamente a atuação de Sam Riley. Sua personificação de Ian Curtis é excelente. A cena da primeira apresentação do Joy Divison na TV é atuada com maestria, mostrando uma espécie de desabamento mental do cantor seguido de uma catarse liberadora quando se vê frente a frente com o sucesso pela primeira vez (vale notar que a apresentação na qual se inspiraram aconteceu na realidade em época mais tardia, após o lançamento do primeiro disco).

O roteiro infelizmente foi feito no padrão seguro e usual a que estamos acostumados a ver, contando com os já imortais clichês: pedido de casamento feito em uma pradaria verdejante (no caso, cinza) sob uma árvore; a viúva reagindo à visão de suicídio gritando “Não! Nãooooooooo!”; Curtis recitando um poeta (Woodsworth) para mostrar sua literalidade; que na arte não basta ter talento, é necessário ser infeliz e sofrer; paixões à primeira vista; conflitos amorosos servindo diretamente para inspirar letras (com Ian olhando para a amante enquanto gravava estas letras); sem esquecermos da infalível sequência de diálogos:

— Estou com medo — diz a amante.
— De quê? — responde o músico.
— Medo de me apaixonar por você.
(repicar de tambores)

O repicar de tambores foi adição minha – pois só faltou isso. No fim das contas dá-se a impressão de que, apesar dos ataques epiléticos e a recusa à fama contarem, a razão principal para o suicídio foi a mulher de Ian Curtis não aceitar continuar casada mesmo sabendo que ele possuía uma amante. Sempre desejamos que haja motivos melhores para alguém tão talentoso acabar com a vida, mas se é assim que querem contar a história…

Apesar do trabalho de câmera ser ótimo, há de se criticar a edição brasileira do filme: é em tela cheia. Com isso temos vários momentos em que não há pessoa alguma na tela mas vozes vindas do nada (os atores estão nos extremos); personagens olhando para o vazio (o objeto está fora da tela); um nariz, uma orelha sem dono, flutuando pelos cantos. É triste que filmes menos comerciais sejam muitas vezes lançados aqui pelas piores empresas.

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CLIENTE MORTO NÃO PAGA (1982)

Estrelado por Steve Martin, “Cliente morto não paga” é uma comédia feita tendo como base uma tradicional história de detetive. Mas adicionada de uma premissa simples porém engenhosa: não é apenas filmado no tradicional estilo preto-e-branco, com direito aos mesmos cenários, diálogos e técnicas narrativas e de filmagens das décadas de 40 e 50, mas também possui colagens de cenas de filmes noir clássicos intercaladas com as atuais. Assim, a magia da edição permite que as histórias pulp de ontem tornem-se parte de uma trama completamente diferente, com Steve Martin contracenando com gigantes do cinema como Humphrey Bogart, Vincent Price, Cary Grant…

A estrutura do enredo segue a tradição: Rigby Reardon, detetive clássico, recebe a visita de uma belíssima mulher que deseja contratá-lo para que investigue a morte de seu pai, um cientista que, embora aparentemente vítima de um acidente casual, teria sido assassinado por um grupo misterioso. Rigby inicia suas investigações com pistas aparentemente triviais e/ou indecifráveis (um endereço, uma lista com nomes, a chave de um guarda-volumes) que, ao serem desvendadas, vão levando nosso herói a situações cada vez mais perigosas… a lugares distantes… a se apaixonar pela cliente… para desvendar um mistério que coloca em risco toda a humanidade (como sempre). Isto tudo com um humor recheado de frases espirituosas (“Foi a relação mais honesta que tive com um mulher. Contei-lhe apenas uma mentira: dei-lhe um nome falso para que ela não pudesse me encontrar caso eu a engravidasse.”) e utilizando muito bem os talentos físicos e expressivos de Steve Martin. Seu timing é excelente; para aqueles acostumados aos filmes de Martin que passam nas sessões da tarde (“O pai da noiva”, p.e.), talvez seja difícil acreditar que este homem já foi um dos grandes comediantes do cinema moderno.

E, claro, o charme são as construções feitas ao redor dos filmes antigos. Ray Milland, em “O Farrapo Humano”, acaba se tornando o possuidor de informações vitais; femme fatales como Lana Turner e Bette Davis tornam-se ex-namoradas do detetive; Martin se disfarça de mulher para visitar James Cagney na cadeia; o próprio Bogart se torna o mentor de Rigby, conseguindo as pistas mais difíceis. E estes encontros são repletos de diálogos como:

“Cary Grant: Você não fuma?
Steve Martin: Não, eu tenho tuberculose.
Cary Grant: Ah, agradeça aos céus por isso.”

Outros filmes e programas de televisão que buscam fazer a mesma espécie de colagem geralmente acabam cedendo demais às referências a ponto do roteiro se banalizar; este filme, porém, é extremamente bem-sucedido em manter uma homenagem sem perder em nada a estrutura de seu enredo. Não só, o mais raro é uma comédia tratar com dignidade as fontes de suas piadas; na verdade “Cliente morto não paga” não apenas respeita os filmes tradicionais mas é, ao mesmo tempo, um elogio a eles – algo inegavelmente devido.

Tons de Cinza

BOA NOITE E BOA SORTE (2005)

Um biópico sobre o embate entre o jornalista Edward R. Murrow e o então senador norte-americano McCarthy, responsável por uma era de paranoia em que qualquer atividade fora do comum era vista como sendo influenciada pelo comunismo, causando assim descrédito profissional e imprisionamentos de inúmeros cidadãos, “Boa noite e boa sorte” é um belíssimo filme cujo mérito cabe, acima de tudo, a Gerge Clooney, diretor, roterista e ator coadjuvante desta obra.

O filme, passado na década de 50, descreve em enxutos noventa minutos as primeiras reportagens feitas por Murrow a respeito de pessoas perseguidas e prejudicadas por supostas ligações com partidos comunistas (p.e., sobre um militar cujo pai possuía tendências de esquerda e que por isso é expulso do exército), reportagens estas que criam interesse direto do governo e, principalmente, de McCarthy, que passa a atacar diretamente o jornalista. O filme foi inicialmente filmado em cores; assim foi possível ajustar o preto e branco às cenas originais de TV que são utilizadas (os entrevistados de Murrow e as acusações de McCarthy). A produção custou 7 milhões de dólares, esmola comparado com o que se gasta hoje em dia em produções convencionais – o próprio Clooney, para realizar o filme, cobrou para escrevê-lo, atuá-lo e dirigi-lo um simbólico dólar cada.

Uma das maiores qualidades da obra é que em nenhum momento o roteiro busca dramatizar a situação mais do que ocorreu na realidade (como estamos acostumados a ver aqui e ali). De fato Murrow tem a continuidade de seu programa ameaçada pelo abandono de seus patrocinadores (que apoiam o governo), mas não temos ameaças de morte, soldados roubando os arquivos do jornalista, sua filha sendo ameaçada por estranhos homens, sua casa sendo atacada, seu melhor amigo dando-lhe as costas, recebendo lição de moral do pai, estes truques comuns em biópicos recentes. O objetivo de Clooney, além de fazer um registro de um importante momento da história norte-americana, não é entreter com suspense barato mas levantar questões. O problema é de fato expresso claramente pelas personagens em vários momentos: no caso, de que a televisão não pode deixar de lado sua responsabilidade ética pelo questionamento dos problemas sociais em troca da diversão vazia e trivial. É inegável que isto se aplica ao próprio cinema atual, outra máquina poderosa que é utilizada mais para alienar do que para informar… Para não alongar a questão, nos extras do DVD temos um dizer do próprio Murrow que parece resumir bem a situação reinante: a indústria já recebe tanto dinheiro fazendo coisas ruins que não precisa fazer coisas boas.

Início

Para coincidir com o lançamento de meu primeiro livro, que seria o romance intitulado “Cheio, Vazio”, (mas que agora será um livro de contos) a ser lançado pela editora Novo Século em junho deste ano, inicio este blog. Além dos comentários ocasionais, pretendo postar regularmente três tópicos, postados conforme eu tiver vontade:

Falarei sobre cds raros: edições restritas, numeradas, fora de catálogo, etc. Sempre de artistas conhecidos: teremos obras de bandas como Simple Minds, The Durutti Column, The Church, Dream Theater, entre inúmeras outras. Chamar-se-á “EDIÇÃO LIMITADA”.

Colocarei poemas diversos, a maior parte sendo de um projeto no qual estou trabalhando, por enquanto intitulado “HOJE, 1983”.

Por fim, o visitante poderá ler críticas de filmes. Para haver alguma espécie de seleção, iniciarei tratando somente de filmes atuais (da década de 70 em diante) que tenham sido feitos deliberadamente em preto-e-branco – será “TONS DE CINZA”.

Espero trocar boas ideias com outros colecionadores, cinéfilos e amantes da literatura!