“Boris” – Concha Blanco

Este livro, de uma escritora galega, foi um belo achado. Em quatorze capítulos curtos, é contada a história de Boris, uma gatinha (sim, fêmea) que surge na vida de uma criança. Os problemas que os donos de gatos conhecem estão lá – como chamar o bichano (a confusão da gatinha por ser chamada de Boris), a dificuldade em vesti-los, como transportá-los em uma viagem, alergia ao pelo, etc.

A história tende um tanto para a melancolia –  é triste quando a gatinha fica sozinha durante a viagem dos humanos, e no final ela precisa encontrar um novo lar pois a criança que cuida dela possui alergia a gatos. O final é até feliz, mas a situação pode ressoar triste para donos de gatos que já sofreram com essas coisas.

Os desenhos são esparsos, e em preto-e-branco, mas bastante simpáticos. Boris é uma fofura! Certamente um livro para crianças um pouco mais velhas, e no qual todo gateiro irá encontrar referências variadas.

Haruki Murakami – “Norwegian Wood” & Gao Xingjian – “Snow in August”

Vejo agora que era inevitável – apesar de gostar bastante de Haruki Murakami haveria o momento em que me decepcionaria com um de seus livros. Mas não é algo trivial pois a decepção ocorreu enquanto lia uma de suas obras mais famosas e conceituadas – “Norwegian Wood”.

Conheci Murakami com o “Caçando Carneiros”, que na época me pareceu muito diferente e divertido. Segui com “Dance Dance Dance”, uma continuação do anterior (apesar do protagonista não me parecer exatamente o mesmo, apesar do nome e histórico em comum). Em ambos a narrativa é repleta de situações absurdas e até mesmo surreais (o fantasma de um homem vestido de carneiro?), que funcionam à perfeição. Depois, li os dois primeiros livros do autor, já mais realistas – “Hear the Wind Blows” e “Pinball 1973”. O primeiro achei bacana, sem pretensão alguma, uma história curta e pronto. O segundo já não foi tudo aquilo (exceto um final excelente), pois era muito parecido ao anterior. Enfim, fui ao outro extremo temporal e li “After Dark”, de 2004, que também, por ser uma história curta e não-pretenciosa, não me desagradou.

O que eu havia deixado de lado em três livros curtos e despretensiosos não consegui evitar em um livro longo e pretensioso.

Se pudesse indicar o problema em poucas palavras é que a familiaridade superou seu limite aceitável – a estrutura narrativa é deveras similar em todos os casos. As personagens são basicamente iguais. Em todos os livros são capazes de expressar-se com uma desenvoltura inacreditável, falando de assuntos extremamente complexos como se fosse eu e você conversando sobre o clima, por exemplo. E se as histórias contadas são diferentes, todas as personagens parecem falar pela mesma boca (a do autor, obviamente). Todos os antagonistas são “criaturas estranhas”, enquanto o protagonista serve bem seu papel sendo um ouvinte platônico das confissões alheias. Alguns trejeitos de autor começam a se tornar irritantes – sempre há alguém com um emprego absurdo (por exemplo, escritor de comentários em mapas para turistas) que recebe salários altos; o protagonista ficar maravilhado por alguém fazer algo trivial brilhantemente (escovar os dentes, preparar uma refeição); menções sem fim à cultura pop; oportunidades incríveis do protagonista viajar, passear, se divertir (provavelmente o que os leitores gostariam de fazer); um grande amigo com muito dinheiro; o modo de terminar os capítulos, das respostas curtas, etc. Tudo parece dar extremamente certo no mundo de Murakami, como uma máquina bem engraxada, inclusive os problemas.

Creio que isso funciona em obras curtas ou em histórias com temas estranhos como no “Caçando Carneiros”, mas em uma obra como o Norwegian Wood isso parece artificial. Pra ser sincero, a maioria do que Murakami escreve poderia existir realmente senão na cabeça do autor – até aí tudo bem. Mas quando se deseja, com esse arcabouço estilístico, descrever uma suposta vida real, até mesmo autobiográfica, não soa bem.

O livro não é de fato ruim – talvez se tivesse sido o segundo o terceiro lido eu o consideraria melhor do que considero agora. Mas é certo que não o consideraria excelente – no final temos uma história em que 1/3 dos antagonistas de suicida, 1/3 desaparece inesperadamente, e o 1/3 restante magicamente “se resolve” – em suma, não sobra ninguém para contar nada, permitindo o famoso “e todos viveram felizes para sempre”. O final do livro é mais dinâmico que o início e o meio, este, no caso, lânguido demais, e onde há, entre outras, uma história de uma professora assediada por uma aluna lésbica que me lembrou muito alguns filmes sem-vergonha de Hollywood, certamente o ponto em que o livro alcança o “rock bottom”.

Certamente o sucesso da obra deve-se muito às muitas menções e descrições de atos sexuais e da sexualidade das personagens. Como o protagonista é evidente o próprio Murakami (melhor: um ideal de si mesmo), há até um momento em que ele aproveita para dar uma cutucada na literatura japonesa (Oe, Murakami e Takahashi) em troca de exaltar escritores norte-americanos (Updike, Fitzgerald, Chandler e Capote). O que não consigo deixar de pensar é que dias antes eu havia lido um conto de Kenzaburo Oe (“Em outro lugar”), com pouco mais de 10 páginas, em que os conflitos sexuais são explicados com uma profundidade inimaginável e brilhante, com uma maturidade que faz a história de Murakami parecer ainda mais juvenil do que já é.

Talvez futuramente eu ainda dê uma chance a outras obras conceituadas de Murakami como “Kafka à beira-mar” ou o “Wind-up Bird Chronicle”, mas já começo a temer pelas mesmas sombras no horizonte.

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Fazendo o caminho inverso decidi dar uma segunda chance a Gao Xingjian, o Nobel de Literatura menos badalado dos últimos anos, com uma obra composta de dois romances. Um deles, “One Man’s Bible”, eu li, e considerei-o fraquíssimo, sem brilho algum. Mesmo com muitos dizendo que o outro romance, “Soul Moutain”, é maravilhoso, ainda assim um Nobel por UM livro somente… bem, Pearl Buck havia conseguido assim.

Mas supondo que a Academia melhorou seu julgamento (de fato a década de 30 foi pavorosa), talvez o mérito do autor não estivesse nos romances, mas no teatro. Assim, decidi encarar face-a-face “Snow in August”, que conta a história de Huineng, o sétimo patriarca do Zen Budismo. O ponto alto é conseguir sintetizar a história budista, focando na importância de Huineng, com brevidade e clareza – o antes e depois de sua filosofia, como ele foi agraciado com o título, as leituras diversas da religião posteriormente.

Infelizmente parece-me difícil a compreensão ou interesse pela história por alguém que não segue ou não tem pelo menos interesse pelo Budismo. Claro que as religiões no fundo são parecidas entre si, e o acontece ali pode, de certa maneira, ser visto como uma metáfora de todas as religiões – um início tradicionalista, primitivo, seguido de uma revolução causada por uma pessoa “do povo”, terminando em uma “casa de loucos” (é a imagem literalmente utilizada na obra). Mesmo assim o público me parece bastante restrito – quero dizer, aqui em nosso país, não em relação ao mundo onde quase 1/4 da população é composto de budistas e hinduístas (de onde surgiu o budismo, fato que o livro também esclarece bastante).

Além disso a edição em si deveria ser um exemplo a outra peças: a tradução é excelente, a introdução longa, clara e necessária, o glossário das palavras chinesas/sânscritas é fácil de consultar e direto, e, não menos importante, há fotos da produção, o que aumenta em muito o apelo, além de permitir ao leitor um ideia da grandiosidade do espetáculo: a peça é visualmente ambiciosa, com aproximadamente 200 atores, música, efeitos artísticos, objetos de cenário enormes, dança, acrobacias, etc. De fato uma oportunidade muito interessante.

John le Carré – “O Alfaiate do Panamá”

O livro mais fraco que já li de John le Carré (os outros foram “O espião que saiu do frio”, “O jardineiro fiel” e “Amigo absolutos”, dos quais eu havia gostado em diferentes graus.) Conta-nos a história de um alfaiate contratado pela Inteligência Britânica para ser um espião – e que, ao invés de espionar, inventa as histórias, causando um grande conflito internacional.

Creio que aquilo que torna um livro de espionagem bom é principalmente ele passar a impressão de que aquilo é possivel (o que Le Carré consegue nos outros livros). Em O Alfaiate do Panamá temos grande rebuliço sobre histórias absurdas, um intermediador estúpido que não conseguiria emprego nem como caixa de supermercado de tão inepto – quanto mais como a única conexão entre a Inglaterra e o suposto espião – uma Inteligência Britânica que poderia muito bem ser a Burrice Britânica, pois crê em textos sem nenhuma comprovação, apenas redações escritas à mão. Para dar apenas um exemplo, é pedido ao espião que ele aliste outras pessoas para espionar. Ao que ele diz que tudo bem, mas que ele apenas falará com elas, que ninguém além dele tem acesso a esses outros espiões, que ele receberá o dinheiro (muito dinheiro)… Certo. E isso é aceito sem problemas.

Embora alguns personagens menores cheguem, lá no fim do livro, a cogitar a hipótese de algo estar errado (tão brevemente que dá medo), a isso não é dado muito valor (parece um artifício do autor para esquivar-se do erro admitindo-o). Nem mesmo a questão mais óbvia, a mais simples, é realmente cogitada: “e se nosso espião estiver mentindo?”. Ou, sendo mais elegante, mas mantendo a lógica: “e se ele for um espião duplo”? Eles apenas aceitam as tolices… O final da história é esdrúxulo, a propósito.

Para piorar, há exageradas explicaçõs sobre as vidas privadas de personagens menores e suas vidas sexuais, que não só servem apenas para encher linguiça (na verdade, a partir mais ou menos da página 150 o livro, até seu final na página 400, poderiam ser retiradas umas 100 páginas tranquilamente), tiram ainda mais a credibilidade desta suposta agência governamental que é gerenciada por um bando de pessoas estúpidas e depravadas. Uma grande decepção, em suma. Para resumir: assista ao filme, que é um pouco acima da média (não muito) e economize seu tempo.

Clark Ashton Smith – “A Vintage from Atlantis”

Clark Ashton Smith, junto com Lovecraft e Robert E. Howard, foi um dos criadores do que hoje se chama de “Mitos de Cthulhu”. Seus contos podem ser resumidos em: alguém descobre que algo terrível pode acontecer, e o algo terrível acontece.
Apesar de seu caráter pessimista (ainda mais do que Lovecraft), suas histórias possuem duas qualidades que as colocam como excelentes exemplares deste tipo de literatura: primeiro são muito variadas, indo da idade média ao futuro em planetas longínquos sem jamais perder a naturalidade ou originalidade. Segundo, tendo começado sua carreira como poeta, é um escritor que explora bastante o léxico inglês, usando as palavras mais exóticas para descrever seus cenários. Por exemplo: “About it, prone or tilted in the mire, there lay the mighty tablets of star-quarried stone that were writ with the inconceivable wisdom of the pre-mundane gods”.
Passando um preliminar estranhamento linguístico, as histórias encontradas são muito boas e algumas de fato excelentes, engajando o leitor em uma fantasmagoria alucinante.

Doris Lessing – “A Proper Marriage”

Ainda superior ao primeiro livro da série “Children of Violence”, esta obra é fantástica. Contando desde o início da vida de casada da protagonista até seu engajamento político e separação, Lessing, como poucos autores, tem a capacidade de lidar com os mais diversos assuntos de uma maneira fluída e, ao mesmo tempo, sincera e profunda. Obviamente o ponto mais chamativo são as questões sobre a sociedade patriarcal, o casamento, a posição da mulher apenas como uma geradora de filhos, as liberdades que os maridos julgam poder ter, as barreiras da sociedade contra o aborto e a separação, a gravidez e o nascimento dos filhos. Mas temos também um olhar agudo sobre um país colonial, o racismo, as tendências políticas, a proliferação do movimento comunista, a vida burguesa – e também um relato histórico riquíssimo sobre a Segunda Guerra mundial, mostrando como as pessoas da época enxergavam o conflito e seus participantes.

Vale notar que o livro, embora bem traduzido, ao invés do título original, que seria “Um casamento apropriado”, algo com muitos significados e que engloba muitos fatores, foi traduzido como “Um casamento sem amor”. Imaginem o que seria se fosse o título de um filme!

Dario Fo – “The Peasant’s Bible and The Story of the Tiger”

Um libro bom de Dario Fo, embora não excepcional. Contêm 6 monólogos curtos, sendo o melhor o “The Story of the Tiger”. Este conta a história de um soldado do exército chinês que se vê ferido mortalmente e é socorrido por uma tigresa e seu filhote – em troca da proteção e do leite com o qual ela o amamenta ele deve cozinhar para as feras. As outras cinco histórias compõe o que é chamado da “Bíblia do camponês” – Fo buscou nas histórias tradicionais do povo aquelas que, assim como as do famoso livro, tentam, com a sabedoria de um (óbvio) camponês, explicar o mundo. Nelas animais ou seres humanos vivem alguma aventura onde deus ou Maria ou Jesus contracena com eles e no qual aprendem alguma moral ou sofrem algum evento que os altera permanentemente – como o porco que possuía asas e, ao perdê-las e cair, ficou com o focinho achatado. Cobra perdendo as patas, alguém?

Um ponto curioso do livro é que 5 das 6 histórias também estão com sua versão em italiano, e 3 das 6 estão em dialeto. Parece-me um modo de apenas engrossar o livro, que seria muito curto sem isso (77 páginas). As histórias em dialeto valem apenas por curiosidade, e ao meu ver a tradução é excelente (Ron Jenkins, o melhor tradutor de Fo) e não há nada na versão original que realmente seja muito diferente para compensar. O estranho é que a única história em que Fo comenta que deve ser falada em dialeto só possui a versão em inglês. Na verdade, creio ser uma estratégia barata de compensar as 56 páginas com desenhos que a versão norte-americana deixou de lado…

As peças de Dario Fo são únicas e muito difíceis de serem representadas, e confesso que antes de ter assistido a uma delas sendo atuada por Mario Pirovano, o maior ator das peças Fo (palavra do próprio autor!), elas não eram tão engraçadas e interessantes quanto são agora. Creio ser essencial para que o leitor compreenda o que está se passando usar o útil youtube para conhecer um pouco do método empregado.