Edição Limitada

DAVID SYLVIAN – WHEN LOUD WEATHER BUFFETED NAOSHIMA (2007)

 

A CARREIRA:

Ex-vocalista da banda inglesa Japan, inicialmente parte do movimento romântico do início dos anos 80 (os fundadores, contra a vontade), seu trabalho solo é um caminhar em direção ao minimalismo com composições cada vez mais afastadas de qualquer estilo discernível. Atualmente poderíamos classificá-lo como um rock experimental avant-garde unido a uma espécie de free-jazz minimalista.

 

A OBRA:

David Sylvian é o rei da música intimista e este álbum é o ponto mais extremista de seu reinado. Uma hora e dez minutos de vento, água, microfonia, portas batendo, pássaros cantando, objetos sendo arrastados, vidros chocando-se e, ocasionalmente e por meros segundos, cânticos agonizantes, teclados monotônicos ou sopros que parecem vir de uma orquestra sendo afinada.

Uma descrição destas pode levar a crer que se trata de um disco de música ambiente, meditativa. Não é o caso. As incisões musicais são abruptas e dissonantes, os sons de objetos são agressivos. Mais provável que a pessoa fique assustada ouvindo a composição. Talvez possamos até mesmo enxergar “WLWBN” como um aprendizado à contemplação de ruídos… Para explicar com uma comparação, imagine o disco “Eskimo”, dos Residents, sem música alguma.

Composta para uma instalação em um museu japonês, para compensar a falta da exposição temos uma embalagem muito bonita: um digi-pack um pouco maior com algumas composições de fotos e desenhos.

 

GRAU DE RARIDADE: ☆☆

Edição limitada, já esgotou na maioria dos catálogos mas ainda consta no site da gravadora (Shamadisound.com). Logo termina, mas o álbum é tão exótico que acredito que facilmente será encontrado em sites de usados. Vamos colocar assim: suponhamos que tenham sido impressas mil cópias. Pois bem, não há no mundo mil pessoas que escutariam este álbum duas vezes.

 

VEREDICTO: ♪♪

É algo ímpar, sem dúvida. Para fortes do coração. Ouvintes casuais de D. Sylvian fariam melhor arriscando-se com “Blemish” ou “Manafon”, que são discos belíssimos.

 

Tempos modernos

É fato notório que a indústria fonográfica já não é mais a mesma. Com o advento da internet e dos downloads “piratas” a venda de cds caiu vertiginosamente. Não só: antes mesmo disso acontecer as próprias gravadoras já haviam mudado seu foco. Nas décadas de 70 e 80 não era incomum uma banda ser contratada por uma EMI, Sony, etc., sem possuir perspectivas de venda elevadas – a gravadora apostava nas bandas a longo prazo. Como exemplo, temos o Simple Minds ou o Level 42, bandas que só fizeram sucesso no quarto ou quinto lançamento. Nos dias de hoje, as bandas que não possuem hits de início precisam começar com gravadoras independentes até serem contratadas por uma das grandes.

De qualquer maneira, com as gravadoras querendo apenas músicos facilmente vendáveis, cada vez mais as bandas dependem de seus fãs para bancar os lançamentos de seus cds. Fazem turnês, vendem souvenirs, edições limitadas (!), o diabo. Mas confesso que me espantei quando vi isto aqui:

http://www.spocksbeard.com/buystuff.html

Para os que não conhecem, Spock’s Beard é a banda fundada por Neal Morse, que atualmente toca no Transatlantic. Que, para quem não conhece, é um projeto paralelo de Mike Portnoy, do Dream Theater. Neal Morse já saiu da banda – o vocalista atual é o incrível baterista Nick D’Virgilio, que já tocou com o Tears for Fears, entre outros. Na verdade todos os membros da banda são músicos de alto calibre. A banda já lançou nove cds e é bastante respeitada no meio.

Bem, a vida não é fácil para ninguém. Para angariar fundos para a gravação do seu décimo CD, venderam “pacotes” que incluem camisetas, brindes, o cd autografado… O SEU NOME COMO PRODUTOR EXECUTIVO e… esperem… esta é boa… esperem…

ELES CANTAM O TEU NOME EM UMA DAS MúSICAS!

Uau. Fechem os olhos e imaginem…

Pena que a “venda” já se esgotou. Eu fico imaginando eles cantando nomes latinos… Ou algum engraçadinho coloca o nome de alguém famoso…

É triste o tempo em que vivemos.

[Nota: comprei o cd e a música com os nomes cantados é excelente! Mas mesmo assim, vinte anos atrás e eles não precisariam depender de uma dezena de fãs para lançar um disco…]

Edição Limitada

CURT SMITH – AEROPLANE (2000)

A CARREIRA:

Um dos membros fundadores do Tears for Fears, Curt Smith decidiu deixar a banda após a turnê do álbum “The Seeds of Love”, alegando fastio com a vida de estrela. Lançou “Soul on Board”, pop inofensivo a la Rick Astley, para cumprir suas obrigações com a gravadora; e “Mayfield”, um brit-pop não tão inofensivo mas nada matador, antes de voltar ao TFF. Lançou recentemente o invernal e belo “Halfway, Pleased”.

A OBRA:

Entre “Mayfield” e o retorno do TFF, Curt Smith produziu pela sua própria gravadora o E.P. “Aeroplane”. Um trabalho curioso que conta com seis músicas: duas inéditas que iriam reaparecer sete anos depois em “Halfway, Pleased”; dois remixes de músicas do “Mayfield” – uma “Reach Out” bastante parecida com a original e uma versão “escutando bossa-nova no Caribe” de “Snow Hill”; e, para não dizerem que se esqueceu dos fãs, uma versão acústica de “Everybody Wants to Rule the World” e uma “Pale Shelter” um pouco mais agressiva do que a original.

GRAU DE RARIDADE: ☆☆

Esgotado faz alguns anos, ainda pode ser encontrado com certa facilidade em sites de leilão. Existe uma versão canadense de “Mayfield” que contém cinco das seis músicas deste E.P. (“Reach Out”, por ser muito similar à original, ficou de fora), mas é bastante difícil de ser localizada.

VEREDICTO: ♪♪

Na época em que foi lançado o álbum compensava pelas duas músicas inéditas, que são boas, e pela curiosidade das versões. Hoje seria interessante apenas para um completista do Tears for Fears ou para quiser um grande resumo da carreira do artista.

Edição Limitada

JBK – PLAYING IN A ROOM WITH PEOPLE (2001)

A CARREIRA:

Steve Jansen, Richard Barbieri e Mick Karn, respectivamente baterista, tecladista e baixista da banda inglesa Japan, desde o término desta no início da década de 80 alteraram trabalhos com outros músicos com projetos em que voltavam a se reunir. Em 1993 fundaram a Medium Productions para lançar suas obras e, ao mesmo tempo, a banda intitulada (adivinhe) JBK. A empresa durou dez anos; hoje Barbieri é o tecladista do Porcupine Tree, Jansen trabalha com o irmão David Sylvian na Shamadhi records, e Mick Karn ocasionalmente lança álbuns solos.

A OBRA:

A carreira da JBK foi sucinta – uma coletânea de gravações pré-início de banda (“Beggining to Melt”), um Ep (“Seed”), um disco de estúdio (“_ism”) e o ao vivo “Playing in a Room With People”. Com o término da gravadora os cds pararam de ser impressos e estão hoje esgotados. Escolhemos este álbum em particular por que, de todos aqueles feitos pelo selo, é atualmente um dos mais raros.

O cd, pasme, não conta com nenhuma música gravada anteriormente pelo próprio JBK: das dez músicas duas são de “Bestial Cluster” e duas de “The Tooth Mother” de Mick Karn, três de “Stories Across Borders” de Jansen/Barbieri e uma da banda “Rain Tree Crow” (os três mais David Sylvian, o vocalista do Japan). Há também duas canções inéditas.

É de se questionar por que este músicos, que possuem tantos trabalhos, decidiram se resumir a quatro obras. Mas não se pode negar que desta maneira obtiveram-se coesão, com as músicas alterando naturalmente entre as mais enérgicas de Mick Karn e as mais contemplativas de Jensen/Barbieri. A banda é excelente e não se pode deixar de ressaltar que as guitarras são tocadas por Steven Wilson, líder do Porcupine Tree, o que em si já é um evento a parte.

Embora a capacidade técnica apresentada seja exuberante, isso acaba trazendo um ponto negativo: o álbum peca pela falta de emoção que se espera de um cd ao vivo. Fora os vocais, a instrumentação é tão exata e correta que poderia muito bem passar por uma gravação de estúdio (sem contar o uso de samplers para backing vocals). Soma-se a isso a falta de informações sobre os shows – genericamente descritos como “realizados no Japão e na Inglaterra”, sem data alguma.

GRAU DE RARIDADE: ☆☆☆

Embora ainda possa ser encontrado, está sendo vendido a um preço mais alto do que as outras obras do catálogo da Medium Productions.

VEREDICTO: ♪♪♪

Não é um álbum que mostra um espectro amplo da carreira deste músicos, mas apenas os melhores momentos de uma época bem definida. Mas há de se convir que é uma das fases mais criativas deles, e a soma de talentos é tão grande que merece respeito. Além disso, é um álbum que não só agradará o fã como também é perfeito para apresentar o trabalho dos três ao admirador ocasional.

Edição Limitada

KEVIN MOORE – THIS IS A RECORDING (1999)

A CARREIRA:

Um dos fundadores do Dream Theater, Kevin Moore decidiu, após quase dez anos de muito esforço  e pouco sucesso, abandonar a banda assim que ela começou a tornar-se famosa. Afastando-se do Heavy Metal progressivo que definia o conjunto, passou a experimentar com músicas ambientes/eletrônicas/pop, alienando assim os fãs de seu antigo trabalho. Atualmente, juntamente com Jim Matheos, do Fates Warning, grava sob o nome OSI, uma banda de industrial progressivo.

A OBRA :

Coletânea de demos que Kevin Moore gravou entre sua saída do Dream Theater e seu primeiro álbum, não há dúvida de que o músico ainda experimentava com estilos até se decidir pelo que seguiria em “Dead Air for Radios” – de fato, as melhores músicas de TIAR são aquelas que foram parar neste álbum. Desde então o trabalho de Moore já era mais rico em nuances e sensações do que na técnica propriamente dita; não há solo algum de teclado e na maioria das músicas busca-se um verdadeiro afastamento daquilo que DT havia feito até então. Alternando entre influências de Peter Gabriel, Tortoise, Björk e, principalmente, Tori Amos, é preciso paciência para ultrapassar música lânguidas e sem criativade até encontrar belas canções.

Esta coletânea também contém as três músicas do EP “Chroma Key”, lançado em K-7 (!) em 1995.

GRAU DE RARIDADE: ☆☆☆☆☆

Edição limitadíssima, Kevin Moore já declarou que não haverá outra impressão. Eu, particularmente, jamais vi uma cópia para vender em sites de leilão ou de cds usados.

VEREDICTO: ♪

Se você acha que “Space Dye-Vest” é uma música expecional ou gosta dos álbuns do Chroma Key, pode vir a gostar. Fora isso não parece ser capaz de gerar mais do que um interesse fugidio. Algumas canções são bastante primitivas e as melhores acabaram no álbum “Dead Air for Radios”, muito mais interessante (e que conta com Mark Zonder na bateria).

Edição Limitada

JOHN TAYLOR (Duran Duran) – RETREAT INTO ART (2001)

A CARREIRA:

Criativo baixista da banda britânica Duran Duran, deixou o grupo na metade da década de 90 para fazer uma carreira solo consideralvemente ativa (em quantidade, não difusão) até o retorno da formação original.

A OBRA:

Todos os álbuns de John Taylor (com exceção do primeiro, “Feelings are Good and Other Lies”) foram vendidos exclusivamente em seu site (alguns também no Japão) e são hoje raridades. Na dúvida, escolhemos a coletânea desta época, um cd que acabou se tornando mais raro que todos os outros.

Feito em uma tiragem limitada de 995 cópias, era acompanhada por uma caixa com alguns brindes. Havia planos para lançá-lo em edição simples e com distribuição convencional que nunca se concretizaram. A coletânea cumpre bem o seu papel: são oito músicas inéditas e onze escolhidas dos vários cds e eps de sua carreira. As inéditas variam de excelentes gravações a demos feitas com um tecladinho. No geral as composições seguem uma linha cronológica, partindo do hard-rock simples de seu primeiro álbum (gravado com Steve Jones, o guitarrista do Sex Pistols) para arranjos mais complexos que remontam aos trabalhos do Duran Duran pós-“Rio”. Comparado com Simon LeBon a voz de John Taylor não é muito expressiva; apesar de correta soa ocasionalmente sem força. A escolha de músicos e instrumentos, porém, é excelente, e os arranjos são tecnicamente melhores e não sofrem dos excessos de produção usuais ao DD. As músicas em geral não possuem os rompantes característicos da banda e tendem a ser mais instrospectivas e emocionais. As melhores (“To do You”, “Hey Day”, “Immortal”, “6000 miles”, para citar algumas) são, na minha opinião, superiores ao que o Duran Duran vem gravando nos últimos anos.

Se a música é de qualidade, a caixa não espanta. Ela consiste em: dois cartões postais com fotos de John Taylor… um livreto de 24 páginas sem texto algum com fotos no estilo Duran Duran (colagens mal-feitas)… um botton… um pôster com fotos caseiras do que, suponho, sejam membros de algum fórum antigo do JT… há a própria caixa em si, branca, numerada e autografada.

O álbum também conta com um cd bônus um tanto desnecessário: cinco músicas que, após terminarem, repetem desde o início – mas, desta vez, sem vocal! E três destas músicas já estão no primeiro cd… Seria mais satisfatório colocar as duas outras no primeiro cd e dar por encerrado o assunto.

GRAU DE RARIDADE: ☆☆☆☆☆

Raríssimo, depende de algum colecionador decidir vender – e sairá caro. Mesmo os álbuns de John Taylor que tiveram alguma distribuição (“The Japanese Album” e “Techno for Two”, lançados no Japão) são vendidos a preços razoavelmente altos em sites de usados.

VEREDICTO: ♪♪♪

Deixando de lado os brindes da caixa e o segundo cd, as músicas são muito boas. Há ocasionalmente alguma balada menos interessante, uma tentativa infeliz de flertar com o funk ou alguma trilha sonora para motel, mas quando John Taylor acerta os resultados são consideráveis. Agradará qualquer fã do Duran Duran.

Edição Limitada

PETER MURPHY – RECALL (1998)

A CARREIRA:

O “avô” do rock gótico, Peter Murphy mantêm, desde a dissolução de sua banda (incluindo a última reunião e dissolução), uma consistente e interessante carreira solo. Com alguns hits em rádios independentes na década de 80 (“Indigo Eyes”, “Cuts you Up”), tendo se convertido ao Islamismo e deslocado-se para a Turquia vem, desde “Cascade”, de 1995, adicionando cada vez mais influências do oriente-médio em seus trabalhos.

A OBRA:

E.P. feito com membros do KMFDM, contém seis faixas: duas versões eurotecho dos clássicos “Rollcall” e “Indigo Eyes”, com pronunciadas linhas de baixo e bateria eletrônica no lugar das guitarras de Paul Statham (seu parceiro musical nos álbuns mais pop), e três inéditas –  “Surrendered”, com a influência árabe que dominaria seu próximo álbum “Dust”; “Cool Cool Breeze”, um a capella de dois minutos que parece durar mil; e duas versões de “Big Love of a Tiny Fool” (baseada em uma música tradicional turca), uma eletrônica e outra acústica.

Este E.P., que na época pareceu ser uma mudança radical em sua carreira, hoje soa como um curto desvio. Com tais releituras de seus clássicos parecia estar largando a veia pop para seguir com o som industrial/árabe, o que de fato viria a acontecer em “Dust”, belíssimo trabalho feito ao lado do músico turco Mercan Dede em 2003. Mas depois veio “Unshattered”, muito mais próximo de seus trabalhos pré-islamismo (e incluindo Paul Statham)… e quem pode saber o que o futuro aguarda?

GRAU DE RARIDADE: ☆☆

Esgotado (E.P.s nunca duram muito), não acredito que Peter Murphy seja o tipo de músico que terá daqui há dez anos uma versão deluxe de “Dust” com este álbum incluso. Por sorte ainda pode ser encontrado em sites de leilão e de usados a preços convidativos.

VEREDICTO: ♪♪

É mais esperado que decepcione do que interesse: as versões de suas canções clássicas tiraram grande parte da beleza delas, “Big Love” e “Cool Cool Breeze” são triviais e “Surrendered”, a mais interessante do álbum, é certamente sobrepujada por qualquer música do “Dust”. MAS… é curioso o bastante para merecer atenção – ou ser essencial para alguém que, além de Peter Murphy, também goste do KMFDM e de outras bandas industriais.