Bob Dylan e o Nobel de literatura

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Houve uma comoção quando Dylan recebeu o Nobel de literatura. Muitos a favor, muitos contra… gostaria de apresentar alguns pontos aqui. Sei que os já convertidos a favor ou contra não irão mudar de ideia, mas sei que a maioria das pessoas não conhece bem nem Dylan nem o prêmio em si.

Primeiro, é de se notar que a maioria das críticas que fazem ao prêmio são sem sentido. No fim das contas, visto que o prêmio é subjetivo, qualquer laureado pode ser criticado. Mas vamos checar algumas críticas que fazem a Dylan:

Ele não escreveu nenhum livro. Mentira – ele escreveu dois, “Tarântula” e “Crônicas”, e suas letras são impressas em livro desde há muito tempo. Como exemplo, o dramaturgo Dario Fo, Nobel, também nunca escreveu suas peças – era sua esposa que transcrevia suas improvisações e as editava.

Ele não faz literatura. Mentira. Antes da literatura moderna, antes de Dostoievski, quase toda literatura era cantada e não publicada. As peças gregas e de Shakespeare não foram feitas para serem publicadas, mas realizadas em performance. Mesmo as obras do bardo só foram publicadas após sua morte. Claro que estamos falando de milênios em que a arte era passada oralmente. No todo, o que Bob Dylan faz está mais preso à tradição literária da humanidade do que um livro moderno de contos. E vale notar que antes dele outro músico já havia ganho o prêmio, o indiano Rabindranath Tagore.

Letra não é poesia. Não confere visto a questão anterior, mas de qualquer forma Dylan sempre escreveu as letras antes das músicas. Façamos uma hipótese: digamos que existam dois Dylans, o Bob e o Joe. Bob Dylan escreveu todas as letras e seu irmão Joe as musicava e saia em turnê. Ocasionalmente Bob fazia uma coletânea das letras e lançava em livros, inclusive com aquelas letras que seu irmão nunca musicou. Assim valeria o prêmio, então?

Ele é muito famoso. Isso não critério (também já vi críticos mencionando que ele é “outro branco”, “outro judeu”…), mas dois outros laureados, Llosa e Pamuk, criticaram isso. Dylan seria já muito rico e famoso e o prêmio deveria ir a autores mais obscuros (como de fato geralmente vai). O problema maior é que Llosa e Pamuk estão entres os autores que, antes de receberem o prêmio, já eram riquíssimos, famosos, um deles com conta em paraísos fiscais. Talvez eles devessem aceitar que outros deveriam ter vencido no lugar deles.

Suas letras não são boas/Havia letristas melhores. Bem, difícil alguém achar isso sem tê-las lido, visto que é o letrista mais influente do século XX. O pessoal cita Leonard Cohen ou Patti Smith ou Lou Reed como letristas “melhores”, mas tirando que Lou Reed já faleceu, Cohen e Reed e Smith sempre admitiram que Dylan é o maior de todos. Se um deles tivesse vencido, certamente argumentaria que Dylan que deveria ter ficado com o prêmio.

Blowin´in the Wind nem é tão boa assim. Discordo, mas mesmo que fosse duvido que algum fã de Dylan colocaria esta música como uma das 10 mais importantes, ou mesmo 100. A obra dele é gigantesca. Não vou escrever de uma em uma aqui, mas eu tenho na ponta da língua mais de 50 letras dele que considero maravilhosas.

Ok, está bom disso. Mas o que eu queria apontar é outro lado da questão. E os outros laureados, são tão incríveis assim? Vi gente argumentando que foi o “fim da Academia”, que foi um erro “eterno”, o que só pode ser dito por alguém que não leu os outros premiados. Pois há muita gente duvidosa.

Antes de mais nada vale mencionar que a obra de Dylan, ao contrário dos outros autores, está facilmente acessível a todos. Quando ganha um escritor francês ou chinês, dificilmente as pessoas (ou jornalistas) vão correndo comprar todos os livros do autor na língua original. Assim, se baseiam em outras críticas, no wikipedia… e não tem respaldo nem para criticar ou elogiar. Não podendo, preferem não criticar.

Mas a verdade é que muitos outros autores dificilmente seriam considerados os melhores em suas áreas, e de fato envelheceram muito mal – alguns anos após o prêmio já haviam dúvidas sobre seus méritos. Claro que isso também é subjetivo, e um autor mediano para um pode ser um grande autor para outro. Eu li pelo menos duas obras de todos os autores desde 1988 então vou me concentrar mais neles. Preciso repetir que o que vou escrever é subjetivo? Acho que chega disso…

Se pararmos para ver, muitos autores venceram o prêmio mais por serem boas pessoas do que por seus talentos puramente literários (Le Clézio, Gordimer, Kertész, Naipaul). Outros possuem um ou outro livro bom, mas uma obra no geral bastante curta (Kertész, Gao Xingjan). Alguns passaram a vida escrevendo sobre o mesmo tema, com livros que quase se repetem (Müller, Modiano). Alguns passando alguns anos do Nobel já nem eram considerados importantes na literatura mundial (Naipaul, Le Clézio, Xingjan, Jelinek) – ou nunca foram considerados antes.

A verdade é que a maioria dos autores premiados possuem livros muito ruins. Llosa tem alguns livros eróticos que são abismais… Jelinek tem alguns livros experimentais interessantes, mas leia Women as Lovers para ver uma literatura amadora, fraca, tola. Lessing era uma gigante, mas teve uma sequência de livros de ficção-científica que não funcionaram. Naipaul teve seu ápice, mas passou, dificilmente alguém o trataria hoje como um mestre das letras. Kertesz e Xingjan tem cada um um único livro fabuloso, e o resto é ok ou ruim.

Vejam que não menciono vários nomes, pois são autores mais consagrados e que até hoje são extremamente respeitados – Saramago, Coetzee, Oe, Grass, há várias escolhas que foram perfeitas. Outra gigante seria Toni Morrison, que gostou da escolha de Dylan para o Nobel.

Tirando essa questão – mesmo que Dylan não fosse o ápice do ápice da literatura, creio que ele supera facilmente em importância e talento pelo menos metade dos autores premiados nos últimos 30 anos (ou 1/4, que seja) não esqueçamos que o Nobel é dado de acordo com as sugestões que a Academia recebe de Universidades ao redor do mundo. Cada ano eles recebem uns 200 nomes, com explicações sobre porque o autor deveria receber o prêmio, leem toda a obra dele, etc.

Vejam que Dylan é nomeado por Universidades desde 1994. Sua influência acontece desde o início da década de 60, muito antes que a maioria dos premiados atuais tivesse sequer começado a escrever. Sua carreira não teve um ápice, ou uma obra fantástica, mas inúmeros ápices e inúmeras obras incríveis. Ele é alguém que continuamente assombra pela qualidade, diversidade e importância. Todos os estilos norte-americanos foram explorados por ele, desde a cultura negra, indígena, judia, colonialista, desde o blues sulista até o jazz de Nova Iorque, com estilos que vão desde o mais experimental ao mais direto.

A grande verdade é que Dylan é um verdadeiro gigante, que influencia gerações há mais de 50 anos, que está além de poder ser medido com as réguas que se usa geralmente. Se alguém pegar qualquer um de seus 8 primeiros discos verá letras inspiradíssimas, complexas, diversas. Não adianta, de um músico com centenas de letras, ler três ou quatro e julgá-lo. Vendo o todo se nota sua versatilidade e originalidade.

Por fim, se olharmos para o outro lado – quem estava na lista de possíveis premiados ano passado – veremos que aqueles mais badalados não fariam jus a Dylan. Os dois poetas mais mencionados como merecedores – Adonis e Ko Un – não me parecem superiores a Dylan (já li bastante coisa deles). Ko Un é extremamente repetitivo, falando de reencarnação e karma (mas é muito bom), e Adonis tem poesias bem medíocres, é um autor irregular. Outros autores mencionados – Murakami, Roth, Oates, DeLillo (outros que são extremamente populares) não me parecem tão incríveis e influentes. Ngugi Wa Thiong´o tem obras excelentes, mas desde a década de 70 ele só escreve ensaios ou livros medíocres (chequem Matigari). Claro que poderíamos argumentar que Lobo Antunes mereceria, e não vou negar. Aira e Mia Couto são bastante repetitivos também. Kadaré não escreve um grande livro há décadas. Banville, Atwood, Pynchon, Marias, Vila-Matas, Krasznahorkai , Oz, Rushdie, Magris, Farah, Goytisolo (qualquer um deles)… já li todos. E prefiro Dylan. Dylan realmente é mais hábil com as letras do que esses acima.

Em suma, qualquer lado que vejamos – Dylan por si só, ele ao lado dos outros premiados, e ele ao lado dos possíveis futuros premiados – está muito, muito bem. Vejam que se Dylan fosse um avião, desde 1962 só tem subido, subido… mesmo que muita gente não goste. Sua influência e importância só aumenta, independente do prêmio ou não. E vai continuar aumentando.

 

 

 

Notícias

Acho que é hora de algumas novidades…

Primeiro de tudo, em breve lançarei mais um livro infantil, intitulado “A aprendiz de alfaiate e o dragão”. Foi ilustrado pelo Heloísa Pintarelli, a mesma que ilustrou os dois livros do Tito.

Em breve teremos algumas imagens, data de lançamento, etc.

Na parte musical estamos finalizando o próximo disco de minha banda, a Sex Psych Love. E este mês irá sair internacionalmente uma coletânea que contará com duas músicas nossas: www.imperativemusic.com.br

Trabalhos variados

Raramente atualizo aqui, admito. Mas estou constantemente atualizando outros canais!

Na página do facebook do Tito, continuo postando fotos, falando de gatos, e de meu trabalho com os livros. Ano passado li as história do Tito e da Tuli para milhares de crianças, em várias escolas.

Estou com outros projetos com livros, que terão novidades em breve.

No blog Eu Gosto de Jogar comecei a escrever sobre quadrinhos, principalmente sobre os mal-feitos.

Um curta metragem que co-roteirizei girou o mundo e até ganhou alguns prêmios. Chama-se Entrevista de Emprego.

Na música, a banda Sex Psych Love está em um hiato, mas estou com outro projeto, com letras em português, que é muito interessante. Mais novidades em breve.

Anos atrás eu escrevia sobre Formula 1. Desde 2002 eu assistia às corridas com uma fidelidade absurda – chegando até mesmo a marcar viagens que eu fazia para não coincidir os horários. Mas nos últimos anos o espetáculo tem sido tão ruim, mas tão ruim, que chega. O ano passado foi abismal de ruim e não há como continuar me enganando. Chapéu para essa categoria.

 

 

 

 

“Boris” – Concha Blanco

Este livro, de uma escritora galega, foi um belo achado. Em quatorze capítulos curtos, é contada a história de Boris, uma gatinha (sim, fêmea) que surge na vida de uma criança. Os problemas que os donos de gatos conhecem estão lá – como chamar o bichano (a confusão da gatinha por ser chamada de Boris), a dificuldade em vesti-los, como transportá-los em uma viagem, alergia ao pelo, etc.

A história tende um tanto para a melancolia –  é triste quando a gatinha fica sozinha durante a viagem dos humanos, e no final ela precisa encontrar um novo lar pois a criança que cuida dela possui alergia a gatos. O final é até feliz, mas a situação pode ressoar triste para donos de gatos que já sofreram com essas coisas.

Os desenhos são esparsos, e em preto-e-branco, mas bastante simpáticos. Boris é uma fofura! Certamente um livro para crianças um pouco mais velhas, e no qual todo gateiro irá encontrar referências variadas.